15/12 – manhã

Neste dia foi realizada a abertura Oficial do Evento, na sede do Farol, em São Paulo, com a participação do Diretor Executivo de Desenvolvimento Social da Fundação Banco do Brasil, Marcos Frade, do Sub-Secretário de Cultura da Cidade de São Paulo Alfredo Manevy, do idealizador e coordenador do Choque Cultural e membro do Espaço Farol, Baixo Ribeiro e do coordenador da ONG Contato, Helder Quiroga.

Helder abriu os trabalhos da manhã inaugural do evento apresentando os convidados e convocando os presentes ao diálogo necessário numa perspectiva de integração entre as redes. Sugeriu que as redes e os convidados perseguissem, especialmente, quatro temas principais durante o evento: Criação de uma plataforma de comunicação integrada entre as redes; Políticas de fomento ao intercâmbio e vivências; Produção de conteúdos sobre as entidades e redes; Planejamento para a realização do 2º Seminário de Imersão de Redes.

O diretor da Fundação Banco do Brasil, Marcos Frade, apresentou a Fundação em seus fundamentos e pressupostos técnicos e operacionais, sua missão e empreendimentos sociais, como o Água Brasil (Cisternas no Semiárido), o CataForte, BB Comunidade e ações com a Agroecologia e Juventude. Apresentou as diretrizes da FBB quanto à distribuição de recursos via editais, no montante de 80% e quanto à necessidade de bons projetos, que atendam, com demandas qualificadas, às iniciativas promovidas pela Fundação. Marcos Frade compreende que a instituição deve estimular a qualidade dos projetos e produtos das entidades e associações parceiras e referenda o Cidadania 2.0 como uma experiência necessária e importante para essa qualificação, identificada pela Fundação, no sentido de melhoria dos projetos apoiados, e otimização dos serviços e recursos financiados da Fundação Banco do Brasil. O diretor anunciou ainda para o ano de 2015, o lançamento de um Edital de 5 milhões de reais, voltado especificamente para projetos com juventude,uma vez que este grupo é de interesse da FBB.

Por sua vez, o Sub-Secretário de Cultura de São Paulo, Alfredo Manevy, saudou aos presentes e afirmou a importância do Cidadania 2.0 ter-se realizado ainda em 2014, ano em que o país viveu importantes processos políticos e socias, como as eleições presidenciais e a copa do mundo. Pra ele, a premência do evento se justificou pela necessidade apresentada pelas redes sociais e culturais, que pretendiam fechar o ano em curso, encontrando soluções a questões nacionais, como a água, por exemplo, que hoje aflige seriamente a cidade de São Paulo, mas que historicamente causa tantos problemas a boa parte da população nordestina e do norte de Minas Gerais. O Sub-Secretário levantou também as questões urbanas e de mobilidade, citando a cidade de São Paulo, cujo gestor, o Prefeito Fernando Haddad, tem estimulado a participação da sociedade civil, das redes e coletivos que se juntam ao poder público para ocupar e ressignificar o espaço público, encontrar soluções e desenvolver políticas públicas para o setor.

Alfredo Manevy identificou os graves problemas das grandes cidades, que carecem de debate público, de novas práticas políticas e de participação social. Identificou ainda problemas circunstantes das cidades, que também afetam as áreas rurais do País: questões relacionadas ao clima, ao desmatamento de florestas e matas ciliares, do desrespeito às populações ribeirinhas e das florestas, por exemplo. Afirmou a importância do evento, como vetor de discussão de temas como cultura, clima e mobilidade urbana, que devem ocupar espaço nas políticas públicas de estado. Para o Sub-Secretário de Cultura, o estado brasileiro deve beber nestas fontes pra repensar as suas relações com a sociedade civil, com vistas à construção de novos paradigmas para a cidade e o campo, o rural e o urbano, buscando novos desenhos de desenvolvimento e sustentabilidade ambiental, econômica e social. Para ele, o fato de o Cidadania 2.0 acontecer no Farol das Artes, em vez de se utilizar de um espaço público tradicional da Prefeitura de São Paulo ou da Fundação Banco do Brasil, já denota a importância das vivências coletivas desenvolvidas pela sociedade civil, a qual tem apostado nos processos colaborativos, sem descuidar-se das parcerias com o estado.

Baixo Ribeiro, coordenador da Choque Cultural e um dos cooperados do Farol das Artes, citou a importância de o Cidadania 2.0 acontecer ainda naquele ano de 2014 e, especialmente, em um espaço laboratorial experimental de negócios privados, de interesse público, ligados à arte, arquitetura, design, educação e mobilidade urbana, que são temas articulados no espaço colaborativo Farol.

Baixo Ribeiro acentuou a importância da união dos grupos e redes, especialmente pelas dificuldades que aparecem no horizonte nos próximos anos, demonstrando como a inovação não está sendo discutida com a propriedade que deveria no Brasil. “Precisamos de novas plataformas de comunicação e de novas formas de sustentabilidade para as redes inovadoras. Não depender de uma única fonte de recursos é a realidade de quem trabalha em rede, hoje. Temos necessidade da invenção e de criar novas matrizes sustentáveis de negócios, que devem operar novas fontes de financiamento, sem necessariamente estarmos atrelados ao Estado como fonte única de recursos, mas como um parceiro que também deve renovar-se”. Para Baixo Ribeiro, inovação deve suportar novas possibilidades de negócios e para isso, defende a inovação no ambiente urbano, rural, social, coletivo, administrativo e industrial, como possibilidade de transformação dos processos políticos e da sociedade.

Em aparte do público, o jornalista do Espaço Fluxo, Bruno Torturra, afirmou: “A rede é a nova mídia de massa”. Torturra relatou a sua experiência como jornalista tradicional e a forma como migrou para outra plataforma de mídia, colaborativa e independente, que se inicia com a Pós-TV, no coletivo Fora do Eixo, e os seus desdobramentos na experiência da Mídia NINJA, que se configurou numa plataforma colaborativa dos movimentos sociais nas Jornadas de Junho, e que inauguraram uma nova mídia de massa. Torturra inicia esta nova experiência de comunicação no Espaço Farol, o Fluxo.

Gerson de Souza, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, falou da importância de o evento Seminário Cidadania 2.0 ter acontecido ainda em 2014, ao surgir como uma espécie de balanço do ano, extremamente necessário para as redes. Gerson afirmou ainda a importância do debate da mídia, presente no evento, pela necessidade premente do tema no debate público e nas redes sociais.

Fabio Pena apresentou a ONG Saúde e Alegria e a Rede Mocoronga, nas quais ele, como repórter e comunicador popular, aborda os temas de saúde e educação nas comunidades extrativistas dos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, localizadas na zona rural dos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro, oeste do Estado do Pará. Fabinho, como é conhecido, relatou suas experiências no território onde atua, desde a ação de formação cultural com comunidades ribeirinhas da Amazônia, até a utilização do mimeógrafo a álcool no programa de monitores mirins, voltado para crianças, com oficinas de arte educação, música, educação para higiene pessoal e cuidado com os dentes. Hoje, afirmou Fábio, o Saúde e Alegria busca alcançar áreas rurais mais distantes e desassistidas.

É nesse sentido que Fabinho destacou a importância da juventude, como protagonista de movimentos democráticos e de direitos, mas que também é alvo da violência da sociedade, do estado e dos modelos capitalistas de consumo e de exploração. O repórter chamou atenção para a pressão externa do estado e de empresas sobre os interesses locais, destacando que existe, por parte desses grupos no território, o desejo de encontrar modelos alternativos e sustentáveis de desenvolvimento regional.

Vitor Santana, da ONG Contato, falou da importância do evento para a cultura de rede e destacou uma fotografia da Rede Mídia NINJA, publicada na primeira página do Jornal Folha de São Paulo da manhã de 15 de dezembro, como ilustração dos protestos protagonizados pelo Levante Popular da Juventude em memória dos presos, torturados e desaparecidos durante a ditadura militar. Tanto a Mídia NINJA como o Levante Popular são redes convidadas e estiveram presentes no Cidadania 2.0, o que demonstra a força dos movimentos e redes, e a oportunidade de troca proporcionada pelo evento.

Sato, da Casa Lapa, falou da experiência da sua instituição, sua forma de atuação e gestão, e da sua expectativa com relação às redes. Sato desenvolve projetos junto aos usuários de crack no centro de São Paulo, e enxerga nas redes uma potência capaz de produzir novos modelos de gestão pública para velhos problemas sociais.

Francisco Alves e Silva, da Fundação Banco do Brasil, falou sobre a importância de o Banco do Brasil e a própria Fundação incorporarem no dia a dia os novos modelos de gestão praticados pelas redes: “Este seminário, na conjuntura política e socioeconômica na qual se realiza, convida-nos a refletir acerca de alguns pontos. Este espaço, propício ao diálogo e trocas de experiências, aponta para a Fundação Banco do Brasil trilhas que desembocam na gestão da pauta da juventude e das iniciativas ousadas dos diversos coletivos e redes aqui presentes”.

Francisco, ou Xixico, como é conhecido, ressaltou: “Somos uma entidade comprometida em sua missão e estratégia com a inclusão socioprodutiva de seu público prioritário – quilombolas, assentados da reforma agrária, catadores, indígenas e agricultores familiares – com ênfase no trabalho com jovens e mulheres”.

Para ele o que cabia era mostrar para as redes presentes a importância dessas parcerias para a Fundação quando compartilham interesses, objetivos e metas para atingirem resultados positivamente impactantes nos territórios definidos para realizar suas realizações: “Pertenço a uma geração de funcionários do Banco do Brasil que entregou sua vida profissional e seus sonhos na construção de um Banco Social comprometido com o desenvolvimento e a justiça social do povo brasileiro. Pensávamos num Brasil com sustentabilidade: criativo, solidário e que criasse oportunidade para todos, sempre alinhado às políticas públicas de inclusão de direitos, definidas e implementadas pelo governo”.

Francisco ressaltou ainda que a Fundação nasceu no bojo das lutas da sociedade brasileira por abertura política, que foi instituída por esse pensamento e que em 2015, completa 30 anos. E completou dizendo que utilizaria da metáfora do decorrer de um dia para ilustrar a existência e a caminhada da Fundação, nas três décadas de sua existência: “O amanhecer foi seu nascimento em 1985. Ela nasce com a missão de ampliar as ações sociais já desenvolvidas pelo Banco. Desta forma a Fundação entra em uma dimensão em que o próprio Banco tinha limitações.”

Xixico continua mostrando que “o entardecer da Fundação foi quando, em 2003, com o início de um novo ciclo no Brasil sob a presidência de um operário – Luiz Inácio Lula da Silva, a Fundação começa a definir suas ações e estratégias comprometidas com a transformação social. A Fundação deixa de implementar projetos de balcão e inicia investimentos em Tecnologias Sociais e define seu público prioritário de relacionamento. Democratiza o acesso aos recursos para investimentos sociais e estabelece forte laço com o Movimento Social, consolidando iniciativas que se transformaram em políticas públicas e estão na pauta do Governo Federal e das redes. Podemos citar a implantação de mais de 60.000 cisternas de placas no semiárido brasileiro e lançamento do Cataforte, do Ecoforte e do Terraforte.”

Finalmente, o representante da Fundação Banco do Brasil mostra que agora se inicia o anoitecer da FBB e que o desafio colocado para todos é “pensarmos o futuro com horizontes estratégicos. Seja para a própria Fundação ou para seus parceiros, ou principalmente, para seu Instituidor, o Banco do Brasil. A banalização de termos com sentidos vários e amplos como a sustentabilidade, não nos permite, às vezes, atentarmos para o risco de deixarmos de construir saídas que transformem a vida de todos os envolvidos no processo e no desafio de cuidarmos e protegermos o planeta e as gerações futuras”.

Com essa fala Francisco concluiu questionando: “qual seria a estratégia para a Fundação pensar a sua própria sustentabilidade para os próximos trinta anos? Pensar a sustentabilidade da Fundação é permitir que ela seja ousada, que articule novos parceiros, que seja um laboratório para criar cenários que contribuam para mais dois séculos de existência de seu Instituidor. Que se comprometa com estas redes que sonham e já estão construindo, de maneira colaborativa, uma nova economia”.

Para ele, que se dedica há anos ao Banco, a Fundação precisa garantir seu futuro e investir nas novas inteligências: “A Fundação não pode e não deve se apequenar nas adversidades, tem de ter grandeza e generosidade para perceber o ‘erro’ como parte do processo de descoberta de novos arranjos. Tem de ousar em inovar e investir na inovação, apontada por muitos de seus parceiros presentes neste Iº Seminário das Redes.”

Concluindo, Francisco disse que a Fundação precisa ser um laboratório criativo, interconectado com os avanços globais, dialogando com todas as linguagens e culturas: “A Fundação necessita sair do século XX e dar um passo decisivo para o século XXI. Isto é o que sonho para os próximos trinta anos da Fundação Banco do Brasil”.15847724378_531146b328_o