15/12 – tarde

Os trabalhos da tarde foram abertos por Helder Quiroga no Espaço Fluxo, com a apresentação da programação e das redes participantes, defendendo que as redes são feitas por pessoas e, não necessariamente, por corporações. E, nesse sentido, foram feitas as apresentações e a exposição pelos presentes.

Baixo Ribeiro, um dos anfitriões do Seminário relatou alguns dos projetos desenvolvidos pelo Instituto Choque Cultural e abriu a possibilidade para trocas entre as redes presentes. A instituição desenvolve atividades no campo artístico em São Paulo, mas também processos de formação em outros estados brasileiros. Ribeiro discorreu sobre a cidade como espaço de aprendizagem, no qual todos são igualmente importantes, porque modelados para dar informações e prestar serviços nos territórios culturais, o catador de material reciclável, o vendedor ambulante, o motorista escolar, o jornaleiro, etc. Ele compreende a escola como simulacro da cidade, para transformação urbana e integração dos vários atores sociais. Apresentou rapidamente a experiência desenvolvida pelo Choque Cultural em Juazeiro do Norte/CE, junto a escolas e com os artistas de cordel que proliferam na cidade: “Numa perspectiva de 30 anos deveríamos pensar que colocamos a cultura encerrada numa caixa, e não a pensamos de forma transversal às outras áreas do saber, do conhecimento, e pelo viés da invenção”.

Após a fala de Ribeiro, foi a vez da consultora de cultura, Eliane Costa, que durante muitos anos foi diretora de patrocínios da Petrobras, falar sobre sua experiência na estatal e sobre o livro “Jangada Digital”, no qual relata os resultados dos programas de cultura digital desenvolvidos pelas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura, durante o Governo Lula. Eliane, que se aposentou na Petrobras e é doutoranda na UFRJ, falou também sobre o seu novo projeto, documentado no livro “De baixo para Cima”, no qual visa a potência, em vez da carência, como paradigma e narrativa no território, e como introdução da cultura digital na periferia.

A cantora e compositora angolana Aline Frazão exprimiu a alegria de estar no Brasil participando do Cidadania 2.0 e de poder aprender com as redes culturais e sociais brasileiras. Aline atualmente mora em Barcelona, na Espanha, mas viveu e estudou por muitos anos em Portugal. A cantora se referiu aos graves problemas existentes em seu país, especialmente no que diz respeito aos direitos humanos e à falta de liberdade política dos angolanos e angolanas. Ela se sente encorajada, a partir dos relatos das experiências das redes, a criar um coletivo em Luanda, especialmente voltado para os direitos das mulheres, que são agredidas e sofrem toda sorte de violências. Para realizar seu projeto, afirmou que conta com o apoio das redes brasileiras de cultura, de direitos e de gênero.

A ativista digital, Caru Schwingel que foi uma das fundadoras da Casa de Cultura Digital de São Paulo e atua hoje em campanhas de mobilização de redes de juventude, é jornalista (UFRGS), mestre e doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Cibercultura/Pós-Com/UFBA), com pós-doutorado em Fotônica e Novas Mídias (Eng. Elétrica/Mackezie/SP) e articuladora de redes do Participatório da Secretaria Nacional da Juventude da Secretaria-Geral da Presidência.

Para Caru a imersão de redes, o estar em contato com o Cidadania 2.0 se traduz em uma necessária roda de conversa, e seus debates qualificaram as discussões sobre as ações das organizações que atuam em rede no país. “Todo encontro presencial é uma oportunidade de diálogo, do sentir, da troca de afeto, um espaço para expressão de saberes e fazeres. O encontro entre organizações como a Contato (Belo Horizonte), o Saúde e Alegria (Santarém/PA), o Farol (São Paulo), a Rede Povos da Floresta (da Amazônia), o Fora do Eixo, a Abraço (Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária), o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), o Centro Orienka Antame (do Povo Ashaninka do Acre) e a ASA (Articulação Semiárido Brasileiro), dentre outros coletivos de artistas, além dos anfitriões do Farol, os pesquisadores, representantes de fundações, de governos e ativistas presentes, não poderia gerar resultados diferentes dos que vemos aqui hoje”.

Caru considera dois aspectos cruciais para a cibercultura: “a apropriação criativa do proces-

so de produção possibilitada pelas tecnologias digitais em rede; e a conectividade e dis-seminação de procedimentos a serem replicáveis em outras experiências”.

Eduardo Zal, arquiteto da empresa Colaboratório, apresentou impressões sobre o trabalho da empresa com arte tecnológica e imagem em movimento fora da tela, narrativas experimentais, vídeo-arte e vídeos interativos. Eduardo falou das perspecticas da empresa SPCine, ligada à Secretaria de Cultura de São Paulo, que pretende investir, em 2015, no clássico tripé de formação audiovisual: formação, produção e difusão/distribuição de conteúdos. Edu espera que, em parceria com a SPCine, possa desenvolver experiências articuladas com coletivos audiovisuais que pensem inovação e arte tecnológica. Ele afirmou pretender inserir, nas iniciativas da SPCine, grupos e coletivos inovadores que já existem na cidade, além de outros que possam ser descobertos. Outra de suas pretensões é ocupar o Tendal da Lapa (espaço público da cidade), para incubar projetos audiovisuais.

Fabio Pena, da ONG Saúde e Alegria, retomou a sua fala, questionando o fato de a Amazônia ser tratada como almoxarifado do Brasil: “Constroem-se pela Amazônia, desde a ditadura, bolsões de miséria a partir do deslocamento de grandes obras para a região, com trabalhadores sazonais que vão embora depois de construídos esses empreendimentos, e que nada fica”. Citou o impacto das hidrelétricas como um exemplo gritante de desrespeito à população local: “geram energia que é distribuída para outros centros e a população local fica sem luz”.

Afirma, no entanto, que nos territórios existem iniciativas importantes desenvolvidas pela juventude, por indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares, que se articulam em redes culturais com vistas à implementação de políticas públicas de cultura, comunicação e desenvolvimento sustentável local e regional. Fábio relatou as iniciativas da Rede Mocoronga, com base em Santarém, que desenvolve ações de formação de grupos de comunicação de jovens nas comunidades ribeirinhas, desde as gestões Gil/Juca no MINC, mas que perderam força nos últimos quatro anos, por falta de apoio do estado. Acentua, no entanto, que a voz ativa dos jovens na região pressiona o estado por melhorias no ensino público e por participação política: “Trabalhamos com a moderna tradição amazônica, com a ideia de conexão destes grupos locais com outros coletivos pelo país. Atendemos a mais de 70 comunidades com o Projeto Saúde e Alegria, numa perspectiva de encontrar uma receita do óbvio, no sentido de fazer a comunidade e o estado trabalharem de forma a criar políticas públicas que atendam às necessidades, mas também às iniciativas locais”.

O projeto Saúde e Alegria trabalha também com as escolas das comunidades, com vistas ao mapeamento de iniciativas sociais e tecnológicas que possam ser desenvolvidas e utilizadas em sala de aula.

Rafael Vilela, representante do Mídia NINJA, apresentou o projeto contadagua.org, desenvolvido em parceria com a Rede Fora do Eixo, as ONGs Itu vai Parar, SOS Mata Atlântica e WWF – São Paulo, que têm se articulado para debater soluções para a crise da água no Estado. Rafael falou sobre as experiências específicas de comunicação da Rede Fora do Eixo, que nasceram com a perspectiva de documentar as ações da Rede, notadamente os festivais de música independente, visto que a grande mídia não estava interessada em cobrir os eventos do circuito e aquele gênero musical. Em 2011, aquela experiência cultural e de comunicação compartilhada se constituiu em Rede de Mídia Independente, que, para além dos circuitos de cultura, começa a cobrir outros movimentos culturais, sociais e políticos no país.

Rafael Pira, como é conhecido, ilustra a experiência a partir da redemocratização do país e dos 12 anos dos governos Lula e Dilma, que fortaleceram os movimentos. “Cada qual da sua forma, conta ele, contribuiu. Lula, pela criação dos marcos legais da cultura, dos pontos, da cultura como direito, pelo fortalecimento da participação dos movimentos, pelo barateamento dos equipamentos e pelo acesso às tecnologias digitais. A presença da ausência de cultura no governo Dilma, fez com que os movimentos se articulassem e se movessem pra aquilo que hoje chamamos de movimento social das culturas”.

Segundo Rafael, o projeto de narrativas sobre a água contadagua.org, foi pensado para a criação de uma aliança em favor da água no Brasil: “Trabalhamos a partir de um enfoque de comunicação que escapa da narrativa tradicional. Falamos da capacidade de uma grande rede de mídia alternativa modelada pelos coletivos, em contrapartida a uma lógica de comunicação que está cada vez mais enxuta (redações com pouquíssimos jornalistas), mas repletas de recursos públicos. Esse modelo em nada é democratizado ou voltado aos interesses coletivos e sociais, embora seja bancado por recursos de todos, via verbas do estado.

Seguindo-se à fala de Rafael Vilela, o jornalista André Basbaum, do SBT, falou da sua experiência como editor de um jornal tradicional e como colocou as imagens do Mídia NINJA no ar durante as manifestações de junho no Brasil, quebrando todos os paradigmas do jornalismo tradicional: “As imagens nasceram ninjas, estavam lá, nas redes, livres e nós não tivemos dúvidas em mostrá-las ao vivo na rede tradicional. Aquilo era a verdade do que acontecia nas ruas, eram imagens que os NINJA também protagonizavam, como movimento de comunicação livre, junto aos movimentos sociais e políticos em marcha pelos seus direitos. Ali estava também o direito à comunicação”.

A midialivrista NINJA Driade Aguiar apresentou os desafios cada vez maiores da rede Fora do Eixo que, além da rede online, também produz conceitos políticos offline, por meio da articulação da Rede Social das Culturas.

O jornalista Bruno Torturra, da Fluxo, falou da sua experiência na Rede Fora do Eixo, quando deixou o jornalismo tradicional, na editoria da revista Trip. Torturra perguntou: “Como você muda a mentalidade pública e discute a relevância da imagem a partir do lugar de onde se transmite essa imagem? Sai do algoritmo que pauta a Rede Globo, por exemplo, e a grande mídia em geral, e consegue tocar outros grupos interessados”. Ele defende que as Jornadas de Junho foram um fenômeno de mídia, mais do que um fenômeno político: “Ali, rompe-se com as possibilidades profissionais tradicionais e abre-se às novas possibilidades das novas mídias”.

Dando sequência aos depoimentos dos participantes do Seminário, Larissa Goulart, do movimento Levante Popular da Juventude, apresentou a experiência do coletivo, que nasceu dos “escrachos” realizados na frente das casas de torturadores políticos da ditadura militar no Brasil: “fomos às casas desses torturadores para cobrar direitos humanos e exigir a punição desses indivíduos”. Para Larissa, o Cidadania 2.0 surgiu como uma oportunidade para o Levante, que ainda tem uma experiência muito tímida no campo da comunicação. O movimento, segundo ela, sente muita necessidade de melhorar nesse setor: “Aqui encontro uma Rede de parceiros que podem nos ajudar a melhorar e a fazer mídia livre, de acordo com aquilo que necessitamos e lutamos. A ativista afirma que o encontro realizado pelo Levante, em Cotia/SP, em 2014, reuniu três mil jovens em um acampamento, para discutir temas de interesse da juventude. Mas, afirmou, a cobertura independente de mídia do evento chegou a alcançar um milhão de pessoas.

O representante da ABRAÇO – Associação Brasileira de Rádios Comunitárias, José Soter, apresentou a entidade afirmando a importância do Cidadania 2.0 como vetor de entendimento entre as redes, ponto de encontro, no qual as redes possam se reconhecer nas suas ações convergentes. Segundo afirmou Soter, a ABRAÇO vem se estruturando desde 1996, com o objetivo de regulamentar as rádios camunitárias e democratizar a mídia no Brasil: “Distribuímos conteúdos para três mil rádios comunitárias, mas não temos recursos para gerar conteúdos. Temos cerca de cinco mil rádios autorizadas, com altíssimo poder de audiência, mas não temos apoio institucional. Ao contrário, sofremos todo tipo de ataques e somos criminalizados pelos setores oligopolizados da mídia tradicional que, diferente do nosso setor, recebem fortunas de patrocínio estatal”. O educador e radialista afirma que a ABRAÇO trabalha com o apoio e a sintonia dos movimentos, e que as rádios comunitárias difundem os direitos sociais e os direitos à comunicação nas suas programações diárias: “A rádio comunitária necessita da convergência tecnológica e das mídias para se fortalecer. Hoje estamos trabalhando para criar um portal de acesso a todas as rádios comunitárias do país, e entendemos que precisamos estruturar uma teia nacional de comunicação livre no Brasil e, aqui, juntos, temos a oportunidade de tecer essa teia”.

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