16/12 – manhã

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O segundo dia do seminário foi dedicado à discussão sobre As Novas Tecnologias e os Desafios da Comunicação em Rede com o tema de reflexão sobre novas ferramentas de comunicação à distância e formas de construção de diálogos em rede, com vistas à sustentabilidade e ao desenvolvimento de ações coletivas e colaborativas. Para animar este debate foram chamados Raoni Kulesza, do Projeto ALAVI, da Universidade Federal da Paraiba/UFPB, e o pesquisador, professor e escritor, Rodrigo Savazoni.

Raoni Kulesza apresentou o projeto desen-volvido para TV digital e interativa brasileira e outras experiências desenvolvidas pelo Projeto LAVID, no Laboratório Tecnológico da UFPB, especialmente os experimentos com a tecnologia 4K, ou sistema interativo de transmissão digital de TV. É um tema técnico, mas de rara importância para as redes e para o desenvolvimento das suas tecnologias e linguagens. Para Raoni, o debate sobre novas tecnologias, promovido pelo Cidadania 2.0 é fundamental, pois estas tecnologias geram possibilidades de democratização de acesso à produção de conhecimento no país. A inovação define essa democratização e acesso, afirmou o pesquisador.

No aparte dos participantes, Baixo Ribeiro mostrou a urgência de as próprias redes valorizarem o ambiente de experiência, o espaço de invenção: “Não adianta termos somente o ambiente da academia, da reflexão acadêmica, mas necessitamos também da prática. A invenção precisa ser cultivada num ambiente laboratorial”.

A professora e pesquisadora da UFRJ e Secre-tária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura Ivana Bentes comentou a possibilidade de uma programação franqueada que não seja só governamental, mas aberta às redes inte-ressadas: “Como criar um sistema de servidores livres? Não se trata de discutir só questões do direito, mas de fato”.

Rodrigo Savazoni defendeu a ideia de que sem uma infraestrutura de fibra ótica distribuída às populações menos favorecidas, nunca será possível ter a democratização do sinal no Brasil. Ele mostrou que, “sem as experiências desenvolvidas pelo LAVID na UFPB, todo esse investimento em tecnologia digital 4K teria morrido. Esse campo é dominado pelas ‘teles’ e estas não têm interesse em pesquisa aberta e muito menos em distribuir o sinal de forma democrática”.

Ivana Bentes disse que entende que essas experiências devem ser otimizadas pelas Redes, por meio de outras universidades que também estão interessadas em ampliar e desenvolver tecnologias, via TVs Universi-tárias, TVs Comunitárias e colaborativas.

Raoni retornou sua fala, lembrando que existe uma experiência importante, desenvolvida pela RNP – Rede Nacional de Pesquisa e pelo Ministério da Cultura – MinC, que está mais ou menos paralisada agora, por falta de apoio do Ministério. Segundo afirma, a RNP desenhou com a SAV – Secretaria do Audiovisual do MINC, uma rede de 2500 salas de cinema 4K no país, tendo as Universidades, TVs Universitárias, grupos culturais, cineclubes e produtores audiovisuais como parceiros.

Caru Schwingel, por outro lado, apontou dois aspectos que considera cruciais para a cibercultura: “A apropriação criativa do pro-
cesso de produção, possibilitada pelas tecno-logias digitais em rede, pela conectividade, e a disseminação de procedimentos a serem replicáveis em outras experiências. A apresentação das pesquisas do Lavid (Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital) da Universidade Federal da Paraíba trouxeram à tona as questões da conectividade quando se necessitam canais de transmissão com taxas acima de 15 gigabytes, para possibilitar imagens em super alta resolução. E há somente um canal de 10 gigabytes entre as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, no país. Temos a lei mais avançada para a internet no mundo, porém não temos conexão. Políticas públicas e a efetividade do Plano Nacional de Banda Larga parecem ser imprescindíveis para um avanço da atuação qualificada em rede, por parte
das organizações.

A ativista, avançou ilustrando o debate com questões muito pertinentes, de natureza técnica, mas fundamentais para o avanço das redes socias colaborativas: “A replicação de metodologias e métodos, a apropriação de tecnologias e processos desenvolvidos por outras organizações, a troca de conhecimentos e saberes sistematizados, parecem ser a demanda que originou a necessidade de um banco de tecnologias sociais. A perspectiva de que saia deste encontro um repositório de metodologias com a descrição dos procedimentos e das ferramentas sociais e técnicas utilizadas será um avanço sem precedentes para a atuação em rede no país. A inventividade, a criatividade, a capacidade de encontrar soluções são características da cultura brasileira que, mediante os contextos precários, tanto no âmbito das organizações sociais quanto das tecnologias digitais, ainda mais se evidenciam. Ter um repositório aberto, disponível, indexado, que coloque em contato organizações com demandas e soluções semelhantes, que explicite para outras possibilidades criativas, que entregue metodologias prontas e resoluções emergentes, que dê as tecnologias, os manuais, o passo a passo para implementar algo pode indicar o amadurecimento das ações das organizações que atuam em rede”.

Savazoni afirma que a era de ouro da internet e da cultura digital livre acabou: “tudo hoje, na internet, passa pelo Facebook e pela Youtube, controladas pelas grandes corporações. O elogio daquilo que fizemos não cabe mais! O que vimos nos últimos quatro anos, na cultura e nas comunicações, foi uma catástrofe e me pergunto se seria possível retroagir às nossas perspectivas do começo do processo, com os pontos de cultura. O Facebook e o Youtube dominaram e esse cenário não existia quando começamos tudo isso. Savazoni questiona: “A inovação para tecnologia deve receber capital tecnológico, mas qual? E quem financia isso? Enquanto não fizerem essas perguntas: o que é tecnologia da morte ou tecnologia da vida, não retomaremos o processo e o controle das comunicações de forma saudável e democrática, voltada para a liberdade e a cidadania. Existe alta tecnologia em Belo Monte e no Pré-Sal, que extrapola tudo em matéria de tecnologia e inovação que está ai, mas a quem interessa, tudo isso? E conclui: “Não precisamos de 4K, apenas! Precisamos de tecnologias livres, colaborativas e de acesso
a todos”.