17/12 – manhã

O período da manhã deste último dia do Seminário foi dedicado ao tema Cultura e Juventude: Novas formas de construção de política na contemporaneidade. O tema, debatido por Eliane Costa e Regina Novaes, pretendeu refletir sobre as novas formas de atuação da juventude na construção de políticas públicas e o ativismo em rede.

Eliane Costa falou sobre a sua juventude e trajetória no contexto da ditadura militar. Relembrou também a sua passagem pela direção de patrocínio da Petrobras e da parceria com o Ministério da Cultura, nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira, quando a estatal e o Ministério desenvolveram importantes projetos culturais de interesse social, coletivo e colaborativo, como os pontos de cultura, o trabalho com escritores, cineastas, atores e toda uma infinidade de produtores dos vários setores e linguagens da imensa diversidade cultural brasileira. Costa apresentou o seu livro Jangada Digital, no qual discorre sobre a narrativa periférica dos Pontos, especialmente os Pontos de Cultura Digital, que durante essas gestões foram identificados e apoiados em suas iniciativas e projetos.

Eliane citou o Rio de Janeiro, onde vive, trabalha e pesquisa, como uma cidade eivada de cultura periférica, mas essa cultura inexiste geograficamente no espaço urbano da cidade, dentro das áreas de maior poder econômico e riquezas. Cita que o discurso periférico começou a
aparecer na Petrobras Cultural, de forma diferenciada, pelas iniciativas do Observatório das Favelas e figuras como Junior Perin, que vinha do Circo, Marcos Faustini e José Júnior, do AfroReggae, que desenvolviam ações socioculturais em uma “cidade partida”, como já anunciava o escritor e cronista Zuenir Ventura.

Essa geração de periferia do Rio trazia já um interesse de construção de uma narrativa pautada na cultura digital, fortemente contemporânea e sofisticada, mas que, ao mesmo tempo, era trucidada pela exclusão e pela violência policial. Nesse período aconteceram as chacinas brutais em Vigário Geral e na Candelária, e de forma a criminalizar os movimentos culturais das comunidades a mídia associou o “pivete” ao funkeiro. É neste cenário que aparece o AfroReggae e a figura de José Júnior, com uma outra motivação, de caráter social e humanizador nos territórios periféricos, rompendo com o apartheid da cidade partida. Eliane relembra que, nesse período, a narrativa é de apoio a esses grupos periféricos: “Surge aí a ideia de uma narrativa da potência. Os jovens que antes eram atendidos/formados na carência, começam a ser pensados como protagonistas de uma potência, como indivíduos capazes
de empreender”.

Nesse novo contexto social surge também a ideia de territórios, incluindo o que se configurou chamar de “territórios digitais e culturais” em rede, para disputar a cidade: “O direito à cidade, ampliando os seus territórios físicos, por meio do conceito, cunhado por Marcos Faustini, de intrusão social”.

A pesquisadora Regina Novaes começou sua fala introduzindo a ideia de que “espaço é cultura”. Regina acentuou a importância da ONG Contato na formação do 1º Conselho Nacional de Juventude e deu ênfase a duas palavras: periferia e direitos. “Elas se completam em um mapa/marco de políticas públicas, que se configuram no Brasil, a partir de 2005”. Regina lembra o CPC (Centro Popular de Cultura da UNE na década de 60) que, atuando por meio dos jovens estudantes de classe média, sai pelo país construindo uma narrativa, que passava pela escola, ou seja, jovem = estudante. Nos anos 80, a juventude entra nas políticas públicas, além ou para além da escola, e surge o jovem como sujeito de direitos, evidentemente, porque a violência e o desemprego levavam os jovens a situações extremas de risco e violência: “um filme, O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas e a fala do rapper Mano Brown, dos Racionais MCs, ‘Periferia é periferia em qualquer lugar’, marcam simbolicamente um tempo de surpresas, definidoras de processo e políticas protagonizadas pela juventude”.

Regina relembra o marco do Fórum Social Mundial e o Acampamento da Juventude, em Porto Alegre, onde os muitos segmentos das juventudes se encontraram e se reconheceram enquanto movimento social. Naquele momento os jovens pensaram: “fizemos da diversidade a nossa moeda”. Ficou ali configurada a fotografia de um tempo que colocava, no mesmo território, as diferenças das muitas juventudes, e surge ali também o Movimento Brasileiro do Hip Hop Organizado. Surge também, o Levante Popular da Juventude, com a Via Campesina e o MST, pensando a juventude em suas várias capacidades. Surgem os “escrachos” e o que era não geracional vira geracional, também como conceito que abriga o urbano e o rural. Surge o MPL (Movimento Passe Livre) e o encontro dos desorganizados com os organizados na revolta do Buzu, em Belo Horizonte. Surge uma nova maneira de ser nacional e local: “O gigante acordou de repente, e tem um fio condutor que deu origem a esse despertar”.

Em 2005 é apresentado o Plano Nacional da Juventude, que orienta a criação do Conselho Nacional de Juventude, a partir de uma política que aponta definitivamente para a ideia de jovem como portador de direitos. A cultura passa a ser entendida de outra maneira e deixa de ser a cereja do bolo: “Não tem ponto de chegada, e cada chegada traz novos conflitos pelas demandas apresentadas. Toda política pública exige respostas às demandas, que têm portadores”. As identidades juvenis são múltiplas e não excludentes; havia uma causa e uma manifestação antes e as diversidades mudaram esses paradigmas; agora pensam o futuro com mais de um palanque. Surge a noção do direito de participar e os movimentos tornam-se performáticos, múltiplos e as suas representações também são múltiplas: “aparece a palavra coletivo fora dos dicionários políticos. Movimentos, redes e coletivos – do presencial para o virtual e vice-versa”. Assim como a ideia de rede e território. E não há movimento de cotas para o estado, quando se pensa direito, pensa-se em público, e o estado está presente, ainda que seja para ser contestado, afirma Regina Novais.

Em um aparte, Caru Schwingel fecha o debate: “As falas de duas mulheres que nos últimos dez anos contribuíram para a construção das ações em rede no Brasil foram emocionantes. Eliane Costa, responsável pela gestão da política cultural da Petrobras e de seus patrocínios, e Regina Novaes, a mais importante pesquisadora sobre juventudes no Brasil, que ajudou a construir o Plano Nacional e as políticas públicas voltadas para a juventude no país. Eliane falou sobre a criminalização do jovem pela mídia no Rio de Janeiro e das ações de coletivos que, através de projetos artísticos, demonstram o essencial de suas culturas periféricas, discriminadas e extremamente criativas, sobre o reconhecimento do ’fazer do nosso jeito‘. Regina traçou um panorama desde os anos 1990, quando a juventude entra na pauta pública em função das grandes mudanças mundiais e nacionais, passando pelo Fórum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre, em que há a criação do Movimento Passe Livre, os acampamentos, o Levante Popular da Juventude vinculado à Via Campesina, e a construção do jovem como sujeito de direito. E, claro, pós-manifestações de 2013, com as múltiplas identidades, a diversidade, a performance, as redes, os movimentos, os coletivos e a proeminência da cultura”.16050012255_5e3d8bf122_o