18/12 – manhã

Neste dia o debate se propôs a analisar as novas formas de associativismo entre redes de movimentos sociais e processos autônomos de intercâmbio de tecnologias sociais.

Ricardo Abramovay

Ricardo Abramovay, professor de Economia da USP, abriu sua fala contextualizando a discussão sobre economia verde e desenvolvimento sustentável, tema de seu mais recente livro, e a sua relação com as Redes e seus potenciais. Ressaltou o uso das tecnologias sociais utilizado por redes como a ASA (Articulação do Semi-Árido), que usa cisternas de placa para armazenamento de água da chuva e que hoje ajuda a estancar os efeitos perversos da seca que assola todo o Brasil. Citou o trabalho do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) com jovens lideranças e a noção
de desenvolvimento sustentável utilizado
pela organização.

Abramovay fez também distinções, no campo teórico, a respeito da economia e do consumo como atividades-fim. O professor ressaltou que as atividades para as quais estamos automatizados na sociedade contemporânea, sobretudo o consumo, nos são vendidas como atividades-fim, embora sejam atividades-meio. Nessa distinção ele fala que os dois Ministérios mais importantes de qualquer governo deveriam ser o Ministério da Cultura e o Ministério dos Esportes, pois são duas das atividades-fim mais importantes para um cidadão. Nessa dicotomia conceitual mora um grave problema de entendimento sobre o papel do Estado e gera distorções dramáticas, a ponto de os dois Ministérios citados terem justamente os menores orçamentos da Esplanada.

O professor falou também da questão da Política Nacional de Recursos Sólidos, aproveitando a presença do MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclado). Ele diz que o lixo tem que ser responsabilidade compartilhada. A política nacional de recursos sólidos sinaliza que estamos todos incumbidos de dar destinação correta ao lixo produzido: as prefeituras, os governos estaduais e federal, as empresas e o próprio consumidor. É importante delimitar em que consiste o compromisso de cada um; sobretudo, saber quem paga a conta. Para o consumidor, a responsabilidade compartilhada exige que ele separe seu lixo, preparando-o para a reciclagem, sob pena de multa. A lei prevê também o conceito da responsabilidade estendida. Com ela, o produtor ou o importador (denominados poluidor-pagadores) terão de responder pelo envio apropriado dos rejeitos do que venderem ao consumidor final, incluindo a estruturação da logística reversa – o recolhimento e a devida reciclagem desses produtos pós-consumo –, para que tenham destinação mais adequada, que não os aterros.

O objetivo tem que ser lixo zero, ou seja, um processo de inovação que leve sempre à reutilização dos materiais. Mas para aquilo que tiver de ser descartado, o aterro sanitário, como prevê a lei, é a solução menos danosa para a sociedade. O aterro controlado não é adequado e tem o agravante de gerar mais gases de efeito estufa que o próprio lixão.

Por fim Ricardo Abramovay destacou a importância de eventos como o Cidadania 2.0, que promovem a troca de tecnologias sociais e sim-bólicas e potencializam o trabalho em rede.

Pablo

Pablo Capilé, coordenador da Fora do Eixo contextualizou a Ong, relatando um pouco de sua história. A rede começou a dar seus primeiros passos em Cuiabá em 2005, com a criação do Espaço Cubo. Nascido para dar sustentação ao setor musical da cidade de Cuiabá, o Cubo se transforma em uma das mais importantes experiências na construção de uma política pública para a música, nos anos 2000. O Espaço Cubo fazia movimentar o cenário musical da cidade instigando as bandas a criarem seus próprios espaços na internet, a usarem da regra de que “artista é igual pedreiro”, reciclando o significado romântico do papel do artista inspirado e que paira, soberano, em uma aura superior. Os artistas podem buscar o seu mercado médio, diz Capilé, trabalhando e vivendo como um profissional liberal, que tem seu público e que cria sua própria rede de trabalho. A criação de uma moeda complementar, chamada Cubo Card, foi outro passo importante do início da rede. As trocas de serviços da cadeia produtiva da música na cidade eram quantificadas em moedas complementares, trazendo a experiência da economia solidária para o centro da discussão sobre o fazer artístico no Brasil. Depois da consolidação da rede em Cuiabá o Espaço Cubo começou a circular pelo Brasil dinamizando mercados do interior do país ao integrar cidades como Uberlândia em Minas Gerais e Rio Branco no Acre, possibilitando dessa forma a criação da Rede Fora do Eixo, que organizava festivais de música pelo interior do Brasil, criando casas coletivas em vários estados, sempre posicionando o ativismo digital como uma das principais ferramentas.

Depois desse ciclo, segundo Pablo, o Fora do Eixo segue um caminho para além da música e passa a utilizar suas metodologias e novos conceitos para ampliar o escopo de trabalho da Rede, começando a atuar no campo das políticas públicas para a cultura, de forma mais ampla, descolando um pouco da música como centro de atuação da rede. É criado então o Movimento Social das Culturas em 2011, que é um espécie de reação à saída do Ministro Juca Ferreira do Ministério da Cultura, no primeiro Governo Dilma, e a entrada da Ministra Ana de Hollanda, que marcou uma fase de profundos retrocessos na política implementada por Gilberto Gil e Juca Ferreira entre 2003 e 2010. Esse movimento social, do qual o Fora do Eixo é um dos expoentes, amplia a interface entre redes que estavam trabalhando separadas, como a Rede de Pontos de Cultura, o Levante Popular da Juventude, o MST, entre outras, que ajudam a criar um anteparo contra o retrocesso nas políticas culturais e ampliam a discussão sobre o papel da juventude no cenário brasileiro.

Depois de fazer essa contextualização, Capilé fez uma reflexão sobre as Jornadas de Junho em 2013, nas quais o Fora do Eixo foi protagonista, pela participação do Mídia NINJA na cobertura dos protestos, tornando-se um case mundial de transmissão ao vivo, desbancando a cobertura da mídia tradicional. Com essa projeção o Fora do Eixo vira alvo de ataques da mídia tradicional e a participação de Capilé e Bruno Torturra no programa Roda Viva, em junho de 2013, se transforma em símbolo daquele momento. Após esse período turbulento começa uma nova disputa na sociedade brasileira e as Redes assumem um papel ainda mais importante no sentido de preservar as conquistas democráticas no Brasil.