A juventude, o descontentamento e a cultura

Os protestos da juventude do século XXI são muito diferentes daqueles do século XX. Não apenas pelos meios tecnológicos com os quais são convocados, mas também porque tudo o que foi está deixando de ser. No maio de 68 francês ou nas revoltas chinesas da década de 80 pedia-se uma mudança profunda, agora querem uma solução às mudanças profundas que aconteceram até agora; e que deixam os jovens sem saber quais saídas lhes oferecem continuidade. As instituições perdem força frente aos jovens. A política tem sido desvirtuada em muitos lugares do mundo e em outros tantos lugares está começando a ser objeto de suspeita. As religiões não são capazes de adaptar seu linguajar a um século de mudanças e parecem continuar pregando no deserto. O exército já não é um refúgio para qualquer um, pelo menos como era antes. A família tradicional está mudando a uma velocidade vertiginosa. Os postos de trabalho não oferecem a segurança que davam há menos de vinte anos e a formação não garante encontrar um lugar na área desejada. O Reino Unido, a Espanha, o Chile, a Itália e os países árabes são a ponta de um iceberg que está surgindo com força e ao qual ninguém parece dar a devida importância. As novas tribos urbanas estão mudando os conceitos de identidade e pertencimento que forjaram as regras sociais do século XX.

As cidades são um quebra-cabeça de dispersões culturais, em torno das quais ainda se concentram os desejos da juventude. Não só as músicas, agora também as imagens, os videogames, as danças, as roupas, o design tecnológico, criam ao seu redor novos grupos e coletivos dispostos a levar seu “fetiche” a lugares insuspeitáveis. Por trás desses novos ídolos se percebe o desencanto profundo com os anteriores. Seria pretensioso nos atrevermos a prever o triunfo de algum dos que vão florescendo, mas seria estúpido não se dar conta da raiz comum de todos eles, a cultura. Esse espaço simbólico de geração de novas esperanças. Essa porta que serve para entrar e sair da memória.

Talvez o maior erro que acontece hoje em dia nos planejamentos de futuro, é não contemplar a presença desses movimentos, nem ouvir seus gritos, com uma visão aprofundada, com capacidade para se colocar na pele do outro, algo imprescindível para saber fazer política. As reformas educativas ainda são pensadas com a mentalidade própria do século XX e continuam sendo o segundo plano  de todos os governos. Mas as políticas culturais não conseguiram sair do século XIX e são deixadas ainda mais de lado, em todos os países, seja na América Latina, na Europa ou no mundo árabe. Os líderes falam coisas que não são levadas a cabo, isso já sabemos, mas nesse caso está em jogo um novo modelo a ser construído, e parecem não entender que as cartas sobre a mesa não são as mesmas de antes. Não valem as mesmas regras porque esse é um novo jogo. Não podemos continuar falando de juventude e continuar não escutando à juventude. Continuar falando de cultura e continuar fechando ela em museus e bibliotecas. Não podemos. Porque, então, quando as nossas casas forem queimadas, as nossas lojas destruídas, os nossos bairros invadidos e a nossa confortável existência for perturbada, nos perguntaremos: mas… eles não tinham tudo? O que está acontecendo com eles?

Não têm tudo, temos conseguido quebrar tudo o que era deles, deixá-los sem um chão sobre o qual podem caminhar. Destruímos o meio ambiente, desvalorizamos a educação, depravamos as instituições, banalizamos a mídia, corrompemos a política. Para eles só resta a criatividade, a cultura como espaço de criação de sentido, e parece que não queremos, nem sequer aqui, colocar nossos recursos à sua disposição… Não podemos, então, reclamar.

O Brasil está em uma posição privilegiada para dar um passo à frente nesse momento. Toda a América Latina, e também a Europa, olham pra ele com uma grande curiosidade querendo saber se vai fazer alguma coisa ou se não vai fazer nada. A janela fica aberta ao mundo; a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 fazem com que todo o mundo queira olhar através dessa janela, que todo o mundo vá olhar por essa janela. Os jogadores de futebol, os atletas, os esportistas, todos eles são jovens, não vamos usá-los somente como fonte de diversão visual… A Grécia já foi…Agora é o Brasil.

 

Fernando Vicário – É Diretor da Empresa Consultores Culturais (Espanha), presta serviços para diversas instituições internacionais Ibero-americanas e para projetos de Cultura e Educação em países da América Latina e Europa.