Economia criativa e juventude

A política foi sequestrada e está, inclusive, sendo torturada pela economia, ou melhor, pelo sistema financeiro. As grandes corporações estão ávidas a devorar esses políticos fracos, que não têm coragem de desafiá-las, de freá-las e colocá-las de volta no seu lugar. No seu devido lugar. No espaço que realmente devem ocupar, ou seja, nos bolsos e não nas cabeças, nos porta-níqueis e não nos corações, nas caixas-fortes e não nas florestas. Hoje o dinheiro ocupa tudo. A febre do dinheiro, do consumo e da riqueza nos cegou, chegando ao ponto de matar a arte de nos governar, de nos conduzir à busca de um bem comum.

Pois bem há um projeto que acabo de conhecer e que recupera a economia para colocá-la à serviço da política e não ao contrário. Coloca o dinheiro em busca de seres humanos capazes de ser criativos e não a criatividade buscando dinheiro para enriquecer aos que não tem escrúpulos. É o projeto de Economia Criativa, que Cláudia Leitão administra à partir do Ministério da Cultura – MinC (http://www.cultura.gov.br/site/2011/09/26/secretaria-de-economia-criativa/ )

O projeto pode parecer muito há outras tentativas já realizadas em várias regiões do mundo e em diversos países da América Latina. Mas a diferença, neste caso, é que seu sucesso se baseia em uma grande articulação. Devolver à política seu protagonismo diante da economia e a transformar em algo que nunca devia ter deixado de ser, o grande espaço de processos de regeneração democrática. Devolve a liderança à sociedade, através das moedas geradas nessa sociedade. Porque além de conseguir um espaço em que os artistas, os criadores, os produtores, os distribuidores e as diversas engrenagens da cadeia produtiva obtenham seus benefícios e sua rentabilidade, o projeto visa articular o país em torno de sua riqueza, da criatividade dos seus habitantes, para a felicidade, a convivência e a construção de um novo modelo de cidadania.

O projeto Economia Criativa do Brasil, não é um mero espaço para potencializar as industrias culturais. É muito mais. É um maneira de começar a relacionar as esferas do poder, de colocá-las em rede para que seja delineada uma reforma profunda sobre as formas de comunicar e traduzir os objetivos de um governo aos seus cidadãos. Um modelo de articulação para que o poder volte a estar nos gabinetes daqueles que damos nosso voto e não nos escritórios daqueles que lidam com o nosso dinheiro. A rede proposta neste processo não é nada mais que uma maneira de dizer que outra forma de entender a economia é possível.

A proposta deve completar sua estratégia dinamizando o setor da juventude, é o espaço em que os novos empreendimentos têm mais força e mais profundidade, e o lugar em que resulta um pouco menos difícil modificar as estruturas de poder que foram se construindo até o momento. Os jovens, como vimos nos protestos que agora se instalam na Wall Street e que começaram a deixar pegadas na globalização a partir de 15 de outubro, querem e precisam voltar a confiar em seus dirigentes e podem retomar o sentido da participação e a responsabilidade democrática.

Uma estratégia conjunta de atuação entre a economia criativa e as organizações de juventude, garante algo que o mundo precisa, sustentabilidade de projetos, transformação dos sistemas produtivos e reinserção do poder político frente ao desmande dos grupos econômicos.

O trabalho conjunto com os jovens eleva o resto das aspirações sociais ao patamar de aspirações baseadas na criatividade e na reformulação da produtividade. Lugares de luta como o meio ambiente, a educação ou o novo urbanismo, são agora lugares de cultura e de juventude. Por isso este projeto tem a profundidade e a força que tem.

Boa sorte.

Por Fernando Vicário

Tradução: Daniella Castanheira