Introdução

Cultura e Juventude
Território, Diálogo e Ativismo

Resultado de parceria entre a Carta Capital e o Centro de Referência da Juventude (ONG Contato), este espaço será dedicado ao debate sobre as profundas e transformadoras articulações entre juventude e cultura na contemporaneidade.

Afinal, trata-se de um tema estratégico para o Brasil. Segundo dados do CENSO 2000, a juventude já compreende um quarto da população brasileira, ou 50.241.785 de pessoas entre 18 a 34 anos.

A juventude foi considerada, durante muitos anos, um segmento social de segunda ordem no Brasil e no Mundo. Após os anos 40 e 50, movida por grandes transformações, conquistou pela primeira vez o direito de ser jovem redefinindo estilos de vida e formas de atuação politica, assim como a defesa de certos ideais como amor livre, autonomia social, independência econômica e revolução cultural.

Nas décadas que se seguiram o termo juventude ganhou ainda mais força, até ser redefinido para os dias atuais como uma constelação de juventudes que se estabelece por outras linguagens e por novas formas de atuação político-sociais e de comportamento.

Segundo a pesquisa “Sonho Brasileiro”, realizada pelo Instituto Box 1824 com 2.900 jovens, essa nova geração já busca se afirmar no mundo a partir de práticas solidárias para transformar a realidade. Basta ver que elementos apontados como fortes campos de atuação solidária da juventude estão na área da Cultura (31%), Meio Ambiente (29%), Educação (26%) e Esporte (25%). Ou seja, se considerarmos a Cultura e o Meio Ambiente como áreas afins e interligadas diretamente, teremos 60% dos jovens brasileiros com desejo em atuar nos campos da Cultura e Meio Ambiente como forma de transformar a realidade social e econômica do país.

Sabemos que a cultura tem sido um instrumento fundamental para a transformação social das juventudes, pois através da arte e do desenvolvimento profissional de jovens empreendedores no campo da cultura tem se tornado possível não somente diminuir a violência nas favelas e em outras áreas de vulnerabilidade social, mas também suprir carências no que tange aos direitos de todo cidadão.

Organizações não-governamentais têm se dedicado a construir plataformas de intervenção social com a cultura não somente nas periferias, mas também junto a jovens de classe média que, muitas vezes, sofrem problemas parecidos quando se trata da falta de estímulo, perspectiva e referências políticas e ideológicas.

De um lado está o jovem de periferia que, mesmo não suprindo, muitas vezes, necessidades básicas, goza de enorme criatividade, já que ser criativo torna-se necessário para a sua sobrevivência no contexto social em que vive. De outro, o jovem de classe média que dispõe de todos os instrumentos e ferramentas para se formar profissionalmente, mas a quem falta estímulo, desafios e responsabilidade social.

Somado a tudo isso, nos deparamos com um mundo que vem passando por diversas transformações, englobando desde o avanço das novas tecnologias às formas de apreensão de conhecimento através de redes sociais e de movimentos político-culturais. Novas concepções territoriais sendo criadas a partir da aproximação entre culturas, proporcionada pelos avanços no campo da comunicação através da internet, do aprimoramento da telefonia móvel e, principalmente, da necessidade de diálogo entre os povos.

Neste âmbito de mudanças de comportamentos e de novas concepções de atuação política, a juventude se apresenta como elemento fundamental para a potencializar novos processos de transformação social num mundo globalizado e multicultural. Não somente no que tange às iniciativas de mobilização social, mas também à urgência de criação de políticas que compreendam o conceito de uma cidadania global.

Quando citamos o termo cidadania global, estamos nos referindo à revisão de valores e princípios que busquem de algum modo dar relevância a elementos essenciais para a convivência dos povos, tais como: a importância dos Direitos Humanos interligado à valorização da autonomia, da diversidade, do respeito ao indivíduo dentro da coletividade e da consciência de coletividade no individuo. Referimo-nos, também, à valorização do meio ambiente como fonte de desenvolvimento econômico, social e cultural; das relações entre o homem e a natureza; do resgate e preservação das culturas tradicionais e da sustentabilidade como principio educacional.

Sendo assim, conversar, conviver, e entender a juventude, é um desafio que deve ser encarado como uma prática social cotidiana para a construção de um mundo mais justo, solidário e colaborativo.

Helder Quiroga – Coordenador da ONG Contato – Centro de Referência da Juventude.